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Eleições brasileiras vão à segunda volta

Nos últimos dias da campanha eleitoral para a presidência do Brasil o cenário de uma surpresa com a recuperação de Aécio Neves e a derrota de Marina Silva foi ganhando dia a dia mais consistência, mas ninguém podia imaginar que o desfecho das eleições deste domingo alterasse de forma tão radical o quadro anunciado pelas sondagens e pelas previsões dos analistas. Aécio Neves, candidato do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), ganhou a corrida a Marina Silva com tanta vantagem (Aécio obteve 33,55% contra 21,32% da sua opositora) e chegou-se tão perto da superfavorita Dilma Rousseff (que teve 41,59% dos votos) que a possibilidade de o PT perder a presidência do Brasil na segunda volta se tornou não apenas possível mas igualmente provável.

Por muito que se especulasse sobre surpresas e reviravoltas quando a campanha entrou na sua velocidade de cruzeiro, ninguém seria capaz de ariscar que Aécio Neves, então com apenas 14% nas sondagens, pudesse chegar ao final do dia deste domingo na posição confortável em que se encontra. O candidato do PSDB sofreu uma severa derrota no Norte e no Nordeste e não foi capaz de ganhar a Dilma Rousseff no seu estado natal que dominou na última década, Minas Gerais. Mas a sua vitória em São Paulo, o estado mais poderoso e mais populoso do país, que representa 22% do eleitorado, é arrasadora. Aí, Aécio recolheu 44,2% dos votos contra 25,8% de Dilma e 25% de Marina. Para sublinhar a vitória retumbante do PSDB, o governador Geraldo Alkmin foi reeleito à primeira volta com 57% e José Serra ganhou a eleição para o senado com 58% dos votos.

Nos comentários nos jornais e nas televisões, o desempenho de Aécio suscitava surpresa e perplexidade. Contra todas as previsões, o candidato do PSDB, que apesar de se afirmar social-democrata e de defender a manutenção das políticas sociais é considerado de direita pelo diapasão da política brasileira, foi capaz de se tornar no íman que atraiu o grosso da rejeição a Dilma e ao PT. A conquista deste estatuto fez-se em dois momentos. Quando Aécio resistiu ao colapso da sua candidatura com o surgimento de Marina e não desistiu da luta, e quando se tornou portador do discurso mais agressivo e eficaz contra a gestão da economia, contra a dimensão da corrupção na Petrobras e contra a apropriação do aparelho de estado pelo PT e pelos partidos que o apoiam. O debate na Globo, que teve um share de 48%, pode ter sido a prova final para muitos indecisos que o Aécio palavroso, errático e, por vezes, pouco assertivo seria capaz de se bater de igual por igual com Dilma Rousseff.

A oito pontos de distância de Dilma Rousseff, Aécio deixa tudo em aberto para a segunda volta. Se se confirmarem as previsões de que a maioria dos votos de Marina Silva são, por essência, manifestações de rejeição ao PT e à sua presidente, o candidato do PSDB pode muito bem reunir condições para liderar as intenções de voto nas primeiras sondagens do segundo turno. Aí, o tempo de antena televisivo será igual para os dois candidatos, o PSDB dispõe de uma máquina partidária motivada e enraizada nos principais colégios eleitorais e conta com a dinâmica de vitória que sempre pesou em eleições democráticas. Para lá disso, é possível que cheguem ao conhecimento público novas revelações sobre o escândalo da Petrobras, que acabarão sempre por penalizar o PT.

Mas a questão essencial dos próximos dias é a saber até que ponto Aécio e a sua base partidária são capazes de celebrar um acordo com Marina Silva e com o Partido Socialista Brasileiro (PSB) para reunir uma plataforma comum para a segunda volta. O namoro entre as duas forças políticas que enfrentam Dilma e o PT não é novo. Fernando Henrique Cardoso e Geraldo Alkmin sempre defenderam uma aliança entre os blocos Aécio/Marina na segunda volta e neste domingo o ex-presidente voltou a apelar a um entendimento entre o PSDB e o PSB. Cardoso poderá ser, de resto, um dos principais elos de contacto entre os dois partidos: Walter Feldman, coordenador-geral da campanha de Marina, é um ex-deputado do PSDB e André Lara de Resende, que integra o núcleo duro da campanha da candidata, foi presidente do banco público BNDES no Governo do ex-presidente.

Aécio Neves sempre foi cauteloso na definição de alianças para a segunda volta. Mas a sua preocupação em não atacar em excesso Marina na campanha, denunciou a necessidade de manter pontes em aberto para a criação de uma frente “antipetista”. Neste domingo, depois de votar, afirmou ter “enorme respeito por ela”, e lembrou que, assim como ele, “está disputando a oportunidade de representar a mudança”. Em princípio, a base partidária que apoia a candidata, liderada pelo PSB, estará disposta para entrar no processo. Mas a posição da própria Marina está em aberto. A candidata queixou-se da colagem que Aécio fez entre ela e o PT, partido onde militou durante 24 anos, e pode repetir a opção que tomou nas eleições de 2010 quando, após obter mais de 20 milhões de votos (obteve agora 22 milhões), decidiu não apoiar nenhum dos candidatos que disputaram a segunda volta.

Com ou sem aliança formal entre o bloco “antipetista”, o que a eleição deste domingo mostra é um cenário para a segunda volta no qual Dilma já não pode assumir o mesmo grau de favoritismo que manteve até aqui. Tudo indica que a segunda volta vai ser, pelo menos, tão animada e imprevisível como o ciclo que se encerrou neste domingo.

Source: Público

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